Posts de Fevereiro, 2008

Sobre o processo criativo

Fevereiro 29, 2008

Umas das coisas que acredito quanto ao processo criativo, é que nunca se deve acreditar plenamente na primeira idéia, e sim que se deve buscar qual a idéia vem além desta primeira. Porque para uma idéia ser inesperada para outro, ela antes de tudo deve ser inesperada para quem a teve. Deve ser uma descoberta, um achado, algo que eu não esperava e olha só que legal isso aqui, como não pensei nisso antes!!

“Como não pensei nisso antes!!” resume tudo, porque se você pensou nisso antes, quer dizer que qualquer um poderia ter pensado, mas se você não pensou nisso antes, isso quer dizer que quem recebe sua idéia provavelmente também não pensou nisso antes, e vai se surpreender.

Por isso acredito no processo criativo como uma ruminação, uma elaboração da idéia, não uma elaboração no sentido de construir estruturas hipercomplexas, mas no sentido de uma reelaboração constante em busca da simplicidade, um se lançar e estar aberto às novas possibildades que podem aparecer no caminho.

Com relação às possibilidades também posso dividi-las em duas categorias, existem as idéias mentais, aquelas que a gente fica pensando pensando, enquanto toma banho, enquanto caminha, e com um pouco de disciplina o ideal é anotar todas, e deixá-las evoluir na cabeça.  Essas idéias mentais podem dar boas cenas, ou não. Somente no momento da execução é que se sabe se uma idéia realmente funciona, porque cada meio de expressão é um canal diferente que possui suas próprias potencialidades.  Outro tipo de idéia vem da exploração da própria linguagem de expressão, como no caso do ator, extrair idéias da própria movimentação do ator e sua relação do espaço, e não do imaginário. Estar aberto a essas idéias a partir do corpo e não a partir da mente.

Acredito que a exploração deve se dar dentro dessas duas camadas, e que elas não estão separadas, pode-se ter uma idéia mental que não funciona do jeito que se imaginava, mas que me leva pra um outro caminho, que de repente alterando aqui e ali pode dar uma coisa muito legal. Assim como pode-se descobrir algo muito expressivo dentro de um processo de descoberta física, e que pode ser atrelado à uma idéia mental para ampliar força e sentido. O que significa não se apegar, mas de saber optar sobre qual a melhor possibilidade.

Samurai Mustafá – no caminho da espada cômica

Fevereiro 28, 2008

“Samurai mustafá” trata-se de um projeto de investigação pessoal de performace cômica, utilizando-se da espada como eixo da ação cênica.
A idéia surgiu após ler o Livro “Musashi” e com a pratica de aikidô, sempre achei os movimentos marciais muito cênicos, e após a leitura do livro, fiquei muito empolgado em gerar algum material dentro dessa temática.
E também, desde ano passado sinto a necessidade de constituir um “solo” performático que possa ser desenvolvido e amadurecido com o passar dos anos, sem se abalar com inconstância que rege as relações interpessoais.

Fiquei ruminando a idéia de novembro de 2007 a fevereiro de 2008, anotando possibilidades de cena desde então, num processo de brainstorming. Dia 25 de fevereiro iniciei o processo de busca física, experimentando as ações anotadas e buscando descobrir que possibilidade de movimento podem surgir da relação corpo/ espada. Isso aconteceu nas manhãs de 25 e 26 de fevereiro. Dia 25 segui o seguinte cronograma de atividades:

Alongamento – 10 minutos
Trabalho com Katas – 20 minutos
Desequilíbro – 15 minutos (para contrapor o trabalho terra do samurai)
Exercício do sonho – 15 minutos (iniciar sensibilização por imagens)
Imitação de animal – Gato 20 minutos (uma das camadas do personagem talvez)
Exercício da gueixa – 20 minutos (Contrapor ao guerreiro)
Exercício do godzilla/ monstro -20 minutos (Acho uma imagem interessante =)
Variações com espada e improviso. (30 minutos)

Definitivamente o exercício de kata marcial necessita de bastante tempo pra desenvolver, a movimentação aparentamente simples é bem complexa de ser executada. Estou seguindo um vídeo que baixei o Youtube (youtube grande parceiro), também uso vídeo de Youtube na Gueisha, gato e godzilla.

No segundo dia coloquei um foco maior na busca de possibilidades com a espada, já que essas pinceladas iniciais de possibilidades de construção de personagem ficaram bem superficiais.

O improviso foi todo filmado, já que estou trabalhando sozinho, e preciso visualizar os movimentos. Todos eles ainda estão muito fouxos e imprecisos. Guilherme Peixoto (www.ciamutua.com.br) que mora comigo viu o vídeo do primeiro dia e fez alguns comentários bem pertinentes sobre a movimentação e constução de personagem, que foram anotados para serem utilizadas numa etapa posterior. Não sei até que ponto essa técnica de se filmar é eficiente, mas por enquanto me parece boa, sendo possível visualizar cenas em potencial. Também viu o vídeo Samara Zukoski, que trabalha comigo no Porto Cênico (www.portocenico.com.br), e já foi convocada para desenvolver comigo figurinos e possíveis cenários.

Também vi o filme “zatoichi” o primeiro de uma série de filmes com temática marcial a ser assistido. O filme tem umas coisas bem infantis e o roteiro é bem fraco, mas a cultura japonesa é muito bem representada através dos figurinos, e coisas que li no musashi que vi em formato de imagem nesse filme, como os jogos de azar e as casas de diversão. Alguns personagens são bem interessantes, como o cara do bar, os clienstes “mosca de bar”, um rounin “macho pra caralho”, duas gueishas irmãs e um japonês engraçadinho. Mas um dos maiores pecados é o protagonista ser basicamente um “chuck noris (é assim que se escreve?)” japonês.

Amanhã pretendo construir o primeiro esboço de uma estrutura de cenas do material que surgiu nos primeiros improvisos, e continuar improvisando nesse ensaio e no próximo, com o foco em abrir as possibidades e não fechar nada. Para semana que vem começar a construir as cenas, parte por parte, buscando a precisão dos movimentos.

Por enquanto me agrada a idéia de trabalhar com dois níveis de cena, um de apresentação em que o público observa, e o outro de interação com o público, como uma aula de artes marciais. À príncipio penso no espetáculo para ser apresentado na rua, ou quem sabe em academias de artes marciais, não sei ainda. E penso também em interagir com um boneco de treino, que servirá para treinar os meus “alunos”.

Os primeiros dias me deram a certeza de ter muito trabalho pela frente. Se der, no futuro postarei aqui uns vídeos do processo. Abaixo foto tirada em São Paulo, quando comprei o boken, minha espada de madeira para treino e que será minha companheira nessa jornada.

Boken sampa
Fotografia: Guilherme Peixoto